Apesar de o Blog tratar de assuntos relacionados ao samba especificamente, peço a licença neste artigo para falar de um grande cavaquinista ímpar do nosso choro, não a licença a poética, porque quem, de fato, fez poesia em quatro cordas, foi o genial Waldir Azevedo. E é sobre ele que iremos bater um papo. Waldir nasceu no Rio de Janeiro em 1923 do dia 27 de Janeiro e vindo a falecer na madrugada de 20 de Setembro de 1980 em Brasília.
Logicamente, todos conhecem pelo menos três das mais de 150 músicas compostas por este gênio, citando entre elas: Brasileirinho, Pedacinhos do Céu e o baião Delicado. Waldir foi o principal responsável por colocar o cavaquinho como instrumento de destaque, por ser um exímio solista, quebrando o paradigma de cavaquinho como mero coadjuvante dentro do Choro. São várias as realizações deste renomado instrumentista no cenário musical tanto nacional, quanto internacional, já que Delicado teve várias gravações no exterior, o que lhe rendeu várias apresentações na América Latina, no velho Continente e Oriente Médio.
No entanto, novamente, eu peço licença para afunilar o assunto do qual eu gostaria mesmo de falar, e este remete a um fato ocorrido em 1971 quando já havia se mudado para Brasília. Conta-se que Waldir ao utilizar um cortador de grama, sofreu um acidente que resultou na perda da ponta do dedo anelar da mão esquerda. Foi levado por sua esposa, Olinda Azevedo, para o hospital, lá, o médico solicitou que trouxessem o dedo para tentar implantá-lo; o resultado foi satisfatório, mas os médicos o desanimaram quanto ao fato de voltar a tocar; no entanto, sua esposa o incentivou a fazer fisioterapia e depois de várias sessões pode retornar ao cavaquinho.
"Pensava não poder mais voltar a tocar, apesar da operação ter sido um sucesso. Mas aí entrou o incentivo de minha mulher, Olinda. Ela não me deixava sem fazer os exercícios necessários para readquirir a sensibilidade nos dedos, e isso me entusiasmou bastante. Hoje me sinto como se estivesse em meus grandes dias.“ (pág. 95, Waldir Azevedo – um cavaquinho na história de Marcos Antonio Bernardo).
Em 1975, a artista plástica Cléa Maia Novelino, fez uma homenagem a Waldir e pintou um quadro no qual continha um cavaquinho sobre um gramado e as mãos de Waldir Azevedo sobre o cavaquinho, o quadro recebeu o título de Minhas Mãos, Meu Cavaquinho. Homenagem tão inspiradora que deu fruto a mais bela música composta por Waldir Azevedo, de mesmo nome: Minhas Mãos, Meu Cavaquinho, no final da música foi inserido um trecho de Ave Maria de Gounod, em agradecimento a Deus por ter voltado a tocar. Esse choro é de uma beleza rara, triste por vezes, mas carrega uma emoção tamanha que na primeira vez em que escutei essa música, uma lágrima caiu. Sua execução não é de grande dificuldade, porém o mais difícil, a meu ver, é passar o sentimento que está arraigado nesta música. Se existem duas palavras que podem defini-la são sentimento e emoção. E Falando em execução, além do próprio Waldir, que já traz consigo essa catarse musical, vale muito a pena escutar uma versão feita pelo Henrique Cazes, belíssima execução, neste estudo não há o trecho de Ave Maria.
Que pena que essas mãos já se foram, mas ficou sua vasta obra; vão-se as mãos, mas fica o cavaquinho.
