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Natalense de origem, Psicólogo por formação, Cavaquinista por paixão e Sambista ou Sambeiro por adoração.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

MÃOS VIRTUOSAS E UM CAVAQUINHO



Apesar de o Blog tratar de assuntos relacionados ao samba especificamente, peço a licença neste artigo para falar de um grande cavaquinista ímpar do nosso choro, não a licença a poética, porque quem, de fato, fez poesia em quatro cordas, foi o genial Waldir Azevedo. E é sobre ele que iremos bater um papo. Waldir nasceu no Rio de Janeiro em 1923 do dia 27 de Janeiro e vindo a falecer na madrugada de 20 de Setembro de 1980 em Brasília.

Logicamente, todos conhecem pelo menos três das mais de 150 músicas compostas por este gênio, citando entre elas: Brasileirinho, Pedacinhos do Céu e o baião Delicado. Waldir foi o principal responsável por colocar o cavaquinho como instrumento de destaque, por ser um exímio solista, quebrando o paradigma de cavaquinho como mero coadjuvante dentro do Choro. São várias as realizações deste renomado instrumentista no cenário musical tanto nacional, quanto internacional, já que Delicado teve várias gravações no exterior, o que lhe rendeu várias apresentações na América Latina, no velho Continente e Oriente Médio.

No entanto, novamente, eu peço licença para afunilar o assunto do qual eu gostaria mesmo de falar, e este remete a um fato ocorrido em 1971 quando já havia se mudado para Brasília. Conta-se que Waldir ao utilizar um cortador de grama, sofreu um acidente que resultou na perda da ponta do dedo anelar da mão esquerda. Foi levado por sua esposa, Olinda Azevedo, para o hospital, lá, o médico solicitou que trouxessem o dedo para tentar implantá-lo; o resultado foi satisfatório, mas os médicos o desanimaram quanto ao fato de voltar a tocar; no entanto, sua esposa o incentivou a fazer fisioterapia e depois de várias sessões pode retornar ao cavaquinho.
"Pensava não poder mais voltar a tocar, apesar da operação ter sido um sucesso. Mas aí entrou o incentivo de minha mulher, Olinda. Ela não me deixava sem fazer os exercícios necessários para readquirir a sensibilidade nos dedos, e isso me entusiasmou bastante. Hoje me sinto como se estivesse em meus grandes dias.“ (pág. 95, Waldir Azevedo – um cavaquinho na história de Marcos Antonio Bernardo).

Em 1975, a artista plástica Cléa Maia Novelino, fez uma homenagem a Waldir e pintou um quadro no qual continha um cavaquinho sobre um gramado e as mãos de Waldir Azevedo sobre o cavaquinho, o quadro recebeu o título de Minhas Mãos, Meu Cavaquinho. Homenagem tão inspiradora que deu fruto a mais bela música composta por Waldir Azevedo, de mesmo nome: Minhas Mãos, Meu Cavaquinho, no final da música foi inserido um trecho de Ave Maria de Gounod, em agradecimento a Deus por ter voltado a tocar. Esse choro é de uma beleza rara, triste por vezes, mas carrega uma emoção tamanha que na primeira vez em que escutei essa música, uma lágrima caiu. Sua execução não é de grande dificuldade, porém o mais difícil, a meu ver, é passar o sentimento que está arraigado nesta música. Se existem duas palavras que podem defini-la são sentimento e emoção. E Falando em execução, além do próprio Waldir, que já traz consigo essa catarse musical, vale muito a pena escutar uma versão feita pelo Henrique Cazes, belíssima execução, neste estudo não há o trecho de Ave Maria.

Que pena que essas mãos já se foram, mas ficou sua vasta obra; vão-se as mãos, mas fica o cavaquinho.






quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

ÚLTIMO SAMBA

Calma lá!! Nem agoniza e nem morre, como um dia citou Nelson Sargento em antológico samba Agoniza, mas não morre, o último samba se refere ao último ato para o samba que realizamos no dia 30 de Dezembro de 2010 em Natal; é um evento que já acontece há 10 anos com realização do amigo Marcelino. O evento em si torna-se fundo e a roda de samba é que é a figura, digamos, o destaque da rodada. Neste ano pudemos contar com um grande número de apreciadores e músicos, em uma confraternização muito coerente do que é um pagode (no sentido de reunião), um clima festivo com muitas, muitas, mas muitas cervejas e aquele sol de Natal. Foi iniciado as 14h00 e foi até 00h00. Haja Samba.

Quem já pôde de uma forma ou de outra, participar de uma roda de samba, tocando ou ajudando com o gogó, vai entender o sentimento que se constrói nessa aglomeração de pessoas batucando, cantando, tocando com caixa de fósforo, com garrafa de cerveja, vai perceber o quão, eu diria, mágico é o momento. A constituição de uma roda de samba já é preditora da liberdade, visto que não há compromisso com o tempo, nem com repertório (apenas com a boa música), é livre em sua essência, bem como democrática, todos podem participar, do mesmo modo sugerir músicas. Não vou negar que é prazeroso puxar um samba e perceber a reação no rosto das pessoas, expressando num dizer “essa é boa”, ou levantando ou batendo na palma da mão, ou mesmo pelo próprio ato de cantar junto, atestando a aprovação do repertório.

Geralmente, há uma associação entre música e lembrança, com os mais velhos quando se toca um samba do tempo da ditadura, há aquela amarga e corajosa memória dos tempos idos; quando um samba lembra uma pessoa amada, quando lembra uma pessoa que já foi amada, uma que já foi traída, que traiu, enfim, temos na música o hábito de relacionar fatos e emoções; e no samba, na roda de samba não é diferente.

É por essas e outras que a paixão pelo samba jamais irá morrer, nem tampouco agonizar, pelo contrário se fortalece, cresce e enobrece nosso cotidiano e o último samba do ano não deixa de ser uma homenagem ao próprio samba.
Até o último samba de 2011, embora hajam nesse caminho vários outros até chegar lá. Inté.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Lembrança

Confesso que para dar o ponta pé inicial neste Blog foi um tanto complicado, pois havia a dúvida sobre qual assunto eu poderia trazer para torná-lo interessante em sua “estréia”. Pois é, a resposta saiu de uma conversa com o amigo Lucas Bonavides que, quando demonstrei a idéia de fazer um Blog falando sobre samba, falou-me “tem tudo a ver com você”. Então, a partir dessa conversa, pude ou pudemos estabelecer o tema, segundo o próprio: “rapaz, fale sobre sua primeira lembrança do samba, de quando você descobriu que era apaixonado por samba”, apaixonado, talvez seja um eufemismo utilizado de forma educada por ele, o que acontece comigo em relação ao samba é uma obsessão mesmo, sem o caráter patológico da coisa, ou talvez até tenha, mas eu, como psicólogo que sou, ainda não consegui perceber. E nessa pisadinha, vou tentar expressar essa paixão de forma simples.

Admito que precisar a primeira lembrança do samba, não me é possível, porém, na minha casa, apesar de morar em uma cidade nordestina – Natal – na qual imperam ritmos mais regionalizados como o forró, existiam discos de Paulinho da Viola, Clara Nunes, Beth Carvalho, Chico Buarque, Toco Preto (Um dos melhores Cavaquinista do samba e choro), discos pertencentes à minha tia e à minha avó; mas como qualquer adolescente natalense não resisti ao xote e xaxado, mas a semente já havia sido plantada.

A tal da obsessão começou mesmo quando resolvi aprender a tocar cavaquinho, e, nesse momento, começou o descobrimento de uma das grandes referências pra mim em termos de batucada e swing que foi o primeiro contato com o Grupo Fundo de Quintal (podem os críticos reclamarem, os xiitas levantarem a bandeira contra o FDQ, mas é uma grande referência dentro do samba pra mim); em pleno veraneio (que diga-se de passagem, aqui em Natal é quase uma obrigação em Janeiro você se mudar pra uma praia e passar todo o mês até o carnaval, e é bom viu?!), escutei os primeiros versos de “Se é pra ter ver sorrir, eu sou capaz de até chorar...”, isso mesmo, conheci Nosso Fogo, se a memória não me falha, composição de Adauto Magalha, Adilson Bispo e Zé Roberto; e ai passei a conhecer todos os times que já passaram pelo FDQ enquanto banda, já que o mesmo surgiu de um movimento e encontros no Cacique de Ramos: Neoci, Almir Guineto, Jorge Aragão, Sombra, Sombrinha, Arlindo Cruz, Mario Sergio, Ronaldinho, o Grandioso Cleber Augusto, Sereno, Bira Presidente, Ubirany, Ademir Batera. Tenho até hoje todos os CD´s do Grupo, muitos merecedores de aplausos, embora outros nem tanto. Vale destacar o período em que estiveram integrando o grupo Arlindo Cruz e Sombrinha, gosto também do período em que o Cleber Augusto esteve no grupo, visto que suas composições, suas construções melódicas ímpares tiverem grande destaque, além do seu jeito de cantar com tons mais baixos e um timbre meio grave, meio rouco.

Depois desse período “fundodequintalniano”, comecei a ter contato com as músicas de Jorge Aragão e Beth Carvalho, desta última lembro muito de dois CD´s que a mesma lançou: Pagode de Mesa Vol. 1 e 2, através dos quais passei a conhecer Cartola, pois a Madrinha do Samba tinha gravado “Acontece” no Vol. 2. Do Jorge Aragão, lembro de um CD chamado “Todas”, músicas muito boas, ótimas lembranças da música Doce Amizade. Depois vieram muitas coisas, sensações, interesse pela história do samba, saber quem são os compositores de cada música. O fato é que o samba está pra mim assim como o “divã” para os pacientes de psicoterapia, psicologicamente falando; é a minha válvula de escape, sabe aquela sensação boa, aquela ansiedade quando se vai fazer algo? Pronto, comigo rola o tempo todo quando se trata de se escutar ou fazer um samba. Falando ainda das músicas, uma outra que está presente em meu dia-a-dia é Doces Recordações de D. Ivone Lara, na voz de Fabiana Cozza, apresentada a mim pelos componentes do Grupo Samboêmios do qual faço parte hoje.

Enfim, o samba hoje na minha vida exerce um papel ímpar, seja acalmando o estresse de um dia ruim, seja adoçando ou tornando melhor um dia já alegre.
O Sentimento é principalmente de gratidão. Nada mais justo que criar um Blog para exaltar e divulgar esse ritmo tão afro-brasileiro.
Valeu Samba.

E pra você, qual a sua primeira lembrança sobre o samba? Chegue mais, dê a sua opinião!